Parques que abastecem: Los Angeles transforma áreas de lazer em infraestrutura de água

Artigo adaptado de smartcitiesdive.com
Los Angeles está construindo uma das respostas mais criativas à crise hídrica urbana: transformar parques em sistemas de captação de água da chuva. O projeto, desenvolvido pelo Departamento de Água e Energia de Los Angeles (LADWP) em parceria com os departamentos de Parques e Recreação e de Obras Públicas, prevê nove instalações no leste do Vale de San Fernando, uma rede capaz de capturar quase 3,6 bilhões de litros de água por ano para reabastecer o aquífero local.
Um projeto com múltiplos objetivos
As obras do primeiro dos nove projetos do Programa de Parques de Captação de Águas Pluviais foram iniciadas no Centro de Recreação David M. Gonzales, em cerimônia realizada em 20 de maio. A escolha do local não é casual: a iniciativa prioriza bairros historicamente negligenciados, onde os efeitos da crise climática tendem a ser mais intensos e os investimentos em infraestrutura, mais escassos.
Além de reabastecer o aquífero, o programa prevê melhorias na qualidade da água do Rio Los Angeles, redução das enchentes locais e benefícios recreativos para as comunidades atendidas. Para Allan Marks, presidente do conselho do LADWP, trata-se de um modelo que “entrega em várias frentes ao mesmo tempo”, justamente o tipo de investimento que cidades sob pressão climática crescente precisam priorizar.
Como funciona a infraestrutura subterrânea
No projeto do Centro de Recreação David M. Gonzales, uma galeria de infiltração subterrânea de cerca de um hectare vai desviar águas pluviais de dois dutos próximos, capturando e filtrando aproximadamente 552 mil metros cúbicos de escoamento por ano. Antes de chegar à galeria, dois separadores hidrodinâmicos removem detritos, sedimentos, gordura e partículas finas da água captada.
Na superfície, o local receberá vegetação nativa, gramados e árvores. Placas educativas voltadas à comunidade vão explicar o funcionamento do sistema e promover consciência sobre sustentabilidade, integrando infraestrutura técnica e uso público de forma que um reforce o outro.
O plano climático que conecta tudo isso
O projeto faz parte de um compromisso mais amplo da prefeita Karen Bass, cujo Plano de Ação Climática lançado em abril estabelece que Los Angeles deve produzir 70% de sua água localmente. Para alcançar essa meta, o plano prevê a construção de 100 projetos de captação de águas pluviais até 2035, abastecendo cerca de 1,8 milhão de moradores com prioridade para comunidades em situação de desvantagem social.
“O impacto da crise climática é local. Mas, felizmente, as soluções também são”, afirmou Bass durante a cerimônia de início das obras. A declaração sintetiza uma aposta estratégica: em vez de depender de importações de água de regiões cada vez mais distantes e pressionadas pela seca, a cidade investe em sistemas descentralizados que capturam o recurso onde ele cai.
Financiamento construído com participação popular
O projeto é financiado pelo LADWP e pela Medida W, um imposto aprovado pelos eleitores em 2018 sobre propriedades que geram escoamento poluente. O tributo arrecada aproximadamente 285 milhões de dólares por ano para o Programa de Água Segura e Limpa, que convida as comunidades a ajudar a projetar e implementar as melhorias locais, com preferência por abordagens baseadas na natureza, espaços verdes e áreas de lazer que também combatem o calor e melhoram os bairros.
Esse modelo de financiamento, combinado com a participação ativa das comunidades no desenho das soluções, representa uma das dimensões mais inovadoras do programa. Não se trata apenas de encanamento subterrâneo: é uma política pública que conecta água, clima, equidade e espaço público numa mesma intervenção.
O que outras cidades podem aprender
A experiência de Los Angeles aponta para uma reconfiguração do papel dos parques urbanos na agenda climática. Em vez de enxergar áreas verdes apenas como espaços de lazer ou reservas de biodiversidade, gestores públicos passam a considerá-las como infraestrutura ativa, capaz de capturar água, reduzir enchentes, combater ilhas de calor e fortalecer a resiliência de bairros inteiros.
Para cidades brasileiras que enfrentam alternância entre secas severas e episódios de inundação, um padrão que a mudança climática tem intensificado, o modelo de Los Angeles oferece uma referência concreta. A lógica é simples e replicável: onde já existe parque, existe oportunidade de fazer o solo trabalhar pela cidade.
