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Trens de alta velocidade nos EUA: nova regra de ruído pode abrir caminhos

Os Estados Unidos não têm trens de alta velocidade de verdade, e uma das razões para isso é regulatória. A legislação atual sobre níveis de ruído ferroviário só cobre trens que operam até 160 quilômetros por hora, o que cria um vazio normativo para qualquer projeto que queira ultrapassar essa velocidade.

Para preencher essa lacuna, a Administração Federal de Ferrovias (FRA) propôs uma nova regra que estabelece padrões de ruído para trens acima de 257 quilômetros por hora e um processo de aprovação especial para composições acima de 354 quilômetros por hora.

Por que a regulação de ruído importa para o futuro ferroviário

A lógica técnica por trás da proposta explica por que a mudança é necessária. Em velocidades mais baixas, o ruído de um trem é dominado pelo barulho mecânico, trilhos, rodas, motor. Acima de 160 mph (257 km/h), a física muda: o ruído aerodinâmico, causado pela resistência do ar, passa a dominar. As regulações atuais foram projetadas para o primeiro cenário e, ao aplicar os mesmos parâmetros de medição ao segundo, colocam trens de alta velocidade em desvantagem regulatória por uma razão que não tem a ver com impacto real sobre os moradores.

“Uma das razões pelas quais não temos trens de alta velocidade de verdade nos Estados Unidos é porque as regras atuais desfavorecem trens que geram a maior parte de seu ruído de fontes diferentes de motores e material rodante, em vez de abordar o problema de forma holística”, disse David Fink, Administrador Federal de Ferrovias, ao anunciar a proposta. “Atualizar essa regra vai remover um grande obstáculo que as ferrovias enfrentam atualmente ao tentar operar trens de alta velocidade.”

A FRA estima que a nova regra pode economizar 100 milhões de dólares em custos regulatórios para os desenvolvedores de trens de alta velocidade ao longo dos próximos 30 anos.

Padrões europeus como referência

A proposta americana é baseada nas regulações da União Europeia, um padrão estabelecido e amplamente compatível com os critérios americanos. A referência faz sentido: Europa tem a experiência que os Estados Unidos ainda não têm. Trens na Itália, Espanha, França e Alemanha já operam a até 360 quilômetros por hora. O TGV francês, o AVE espanhol e o Frecciarossa italiano são referências globais de trens de alta velocidade em operação comercial há décadas.

Adotar os parâmetros europeus como base não apenas acelera o processo de criação de uma norma americana, mas também facilita para fabricantes internacionais que queiram operar ou vender equipamentos no mercado americano, reduzindo barreiras de entrada e aumentando a competição.

Projetos que esperam por essa regulação

Dois projetos americanos de alta velocidade estão na linha de espera para se beneficiar da nova regra. O California High-Speed Rail, que prevê operar trens a até 220 mph (354 km/h) entre Los Angeles e São Francisco, e um projeto em Nevada com especificações similares. Ambos precisariam de um marco regulatório claro sobre ruído antes de avançar com suas operações.

O contexto político é ambíguo. O governo Trump cancelou 4 bilhões de dólares em financiamento federal para a ferrovia da Califórnia e encerrou o suporte federal ao projeto de trem entre Dallas e Houston. Ao mesmo tempo, o Secretário de Transportes Sean Duffy afirmou que a administração está “cortando a burocracia que impediu os inovadores ferroviários de construir nos Estados Unidos” e quer tornar o setor atraente para parceiros privados e investidores. A proposta de nova regulação de ruído está alinhada com esse discurso de desburocratização.

O que isso tem a ver com o Brasil

O Brasil tem um histórico longo e frustrante com trens de alta velocidade. O projeto do Trem de Alta Velocidade entre Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas foi licitado, cancelado e relançado múltiplas vezes sem nunca sair do papel. As razões são variadas, mas barreiras regulatórias e marcos normativos inadequados para tecnologias ferroviárias avançadas estão entre os obstáculos recorrentes citados por especialistas e potenciais investidores.

A experiência americana de identificar lacunas regulatórias específicas que bloqueiam projetos e propor normas baseadas em padrões internacionais já testados é uma abordagem que o Brasil poderia adotar com mais frequência.

Em vez de criar regulações do zero para tecnologias que outros países já operam há décadas, adotar padrões europeus como referência, adaptados às condições locais, reduziria o tempo e o custo de construção de um marco normativo adequado. Para quem acompanha o debate ferroviário brasileiro, a notícia de Washington é um lembrete de que às vezes o que falta não é tecnologia nem recursos, mas a disposição de atualizar as regras que impedem o progresso.

 

Adaptado de smartcitiesdive.com

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