Tráfego: trabalho remoto e clima extremo estão mudando o congestionamento

Texto adaptado de smartcitiesdive.com

Los Angeles, Honolulu, São Francisco e Nova York lideram o ranking de cidades mais congestionadas dos Estados Unidos em 2025, segundo índice anual da TomTom. Mas os dados revelam algo surpreendente: apesar do aumento global no congestionamento, os EUA são o país menos congestionado entre 54 estudados.

O que mudou? “Novas políticas estão reformulando padrões de tráfego nas grandes cidades”, explica a TomTom. “Normas de trabalho remoto continuam alongando e redistribuindo o tradicional horário de pico, e desastres climáticos testam cada vez mais a confiabilidade das redes viárias”.

No Brasil, o cenário é ainda mais desafiador. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, 36% dos brasileiros passam mais de uma hora por dia no trânsito. Outros 21% perdem entre 1 e 2 horas diárias devido aos congestionamentos.

Três lugares, três estratégias

Nova York

Nova York implementou precificação por congestionamento em 2024, modelo que busca transferir viagens para transporte público e financiar investimentos em infraestrutura. Os resultados impressionam:

  • Tráfego mais rápido em pontes e túneis de Manhattan
  • 8% de aumento no uso de ônibus na zona de cobrança
  • 9% de crescimento no metrô (dados até setembro)

Parte do tráfego foi redirecionada, mas condições locais — entregas e viagens urbanas curtas — continuam pressionando o congestionamento geral. Ainda assim, a TomTom confirma: “O efeito líquido permanece positivo nos corredores mais importantes da cidade, onde eficiência e confiabilidade melhoraram”.

Texas

Austin, Dallas, Fort Worth, Houston e San Antonio estão entre as cidades texanas com piores níveis de congestionamento. São cidades essencialmente dependentes de automóveis, e o estado respondeu alargando rodovias, melhorando viadutos e cruzamentos, e adicionando estradas pedagiadas.

O problema? “Esses investimentos podem ser compensados pelo crescimento da demanda, nova construção e mudança nos padrões de viagem”, alerta a TomTom. É o fenômeno conhecido como “demanda induzida”: criar mais espaço para carros atrai mais carros.

Los Angeles

Los Angeles, embora lidere o ranking de congestionamento americano, é também uma das cidades de movimentação mais rápida no relatório deste ano. O motivo? Sua rede de rodovias, que representa 63% das vias no centro da cidade.

LA construiu metrô leve, linhas de metrô, BRT, infraestrutura para bicicletas e pedestres. Mas motoristas ainda engatinham a velocidades médias abaixo de 20 mph (32 km/h) durante os horários de pico matinal e vespertino.

“O comportamento de viagem é dinâmico, e o congestionamento emerge em lugares diferentes, em momentos diferentes e por razões diferentes”, resume o relatório.

Tráfego atualmente no Brasil

São Paulo: Do Binóculo ao Big Data

Incrível pensar que em 2012, São Paulo monitorava trânsito com binóculos, cronômetros e poucas câmeras. Funcionários da CET ficavam no topo de prédios medindo visualmente a lentidão. Com essa tecnologia, monitoravam menos de 10% das ruas — 860 km em um universo de 17 mil km.

Hoje, a realidade é outra. Sistemas avançados de gestão baseados em dados em tempo real permitem ajustes dinâmicos nos semáforos. A parceria com Waze for Cities fornece informações sobre padrões de deslocamento, permitindo intervenções mais precisas.

Campinas

Campinas implementou sistema revolucionário de semáforos inteligentes usando a plataforma Dojot, desenvolvida no Brasil. O sistema ajusta sinais em tempo real considerando:

  • Intensidade do tráfego
  • Urgência de veículos prioritários (ambulâncias, viaturas)

Uma ambulância a caminho do hospital pode passar por 13 semáforos sem parar, reduzindo drasticamente o tempo de chegada. Os benefícios incluem redução de até 30% no tempo de deslocamento de veículos de emergência.

Recife

Segundo o Índice 99 de Tempo de Viagem (ITV 99), Recife lidera o ranking nacional. Deslocamentos de carro em horários de pico demoram em média 86% mais tempo comparados a períodos sem congestionamento.

Outras cidades no topo: Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo. O índice mede o tempo médio perdido pelas pessoas com o tráfego ruim — informação que subsidia melhores políticas de transporte público e planejamento urbano.

Tecnologias que Estão Funcionando

Semáforos adaptativos

Copenhague utiliza semáforos inteligentes que ajustam tempos de espera conforme demanda. Sensores identificam o tipo de usuário, priorizando ônibus e bicicletas. É tecnologia que aloca tempo de forma mais eficiente, ajudando no controle do tráfego.

Monitoramento em tempo real

Sistemas avançados de gestão de tráfego, baseados em dados em tempo real, permitem ajustes dinâmicos nos semáforos para otimizar o fluxo de veículos. Câmeras de videomonitoramento e sensores de presença controlam semáforos para abrir ou fechar conforme volume de carros na via.

Aplicativos de navegação

Waze, Google Maps e outros aplicativos fornecem rotas alternativas, distribuindo o tráfego de maneira mais eficiente. Eles também coletam dados que ajudam planejadores urbanos a identificar gargalos e priorizar investimentos.

Gestão inteligente de estacionamento

Sistemas de estacionamento inteligente (Smart Park) permitem identificar vagas disponíveis antes de sair de casa e pagar tarifas pelo celular, reduzindo tempo de busca por vaga — um dos fatores que mais contribuem para congestionamento.

Impacto econômico

Perdas bilionárias

Estudos indicam que o Brasil perde bilhões de reais anualmente em produtividade devido ao tempo que trabalhadores passam parados no trânsito. Empresas enfrentam aumentos nos custos logísticos, que se refletem nos preços de produtos e serviços.

Segundo estudo da FGV, o tempo médio gasto em deslocamentos nas principais capitais brasileiras ultrapassa duas horas diárias. Em São Paulo, congestionamentos chegam a somar mais de 850 km nos horários de pico.

Custos ambientais

Congestionamentos aumentam emissões de poluentes. Veículos parados ou em movimento lento consomem mais combustível e emitem mais CO2, contribuindo para mudanças climáticas e problemas de saúde pública relacionados à qualidade do ar.

Trabalho remoto: aliado do tráfego ou vilão?

O trabalho remoto distribuiu horários de pico, mas não eliminou congestionamentos. Planejadores de tráfego agora têm acesso a dados em tempo real que mostram padrões mais complexos:

  • Picos menos intensos mas mais prolongados
  • Aumento de viagens de meio-dia (almoço, compras)
  • Mudança de rotas tradicionais
  • Crescimento de entregas por e-commerce

“Planejadores agora têm acesso a dados de tráfego em tempo real junto com medidas tradicionais, como detectores de loop e contagens pontuais de tráfego, para gerenciar vias de forma mais eficaz”, observa a TomTom.

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