Smart cities têm sensor, dado, aplicativo: e o morador, onde entra?

O termo “cidade inteligente” evoca imagens de sensores urbanos, painéis de dados em tempo real e aplicativos de serviços públicos. Mas a literatura brasileira e internacional converge em um ponto que costuma ficar fora desse imaginário: smart city não é sinônimo de infraestrutura tecnológica. O conceito mais consistente envolve também capital humano, capital social, participação cidadã, sustentabilidade e qualidade de vida.
Em pesquisas brasileiras, predominam definições que associam cidades inteligentes à melhoria das condições de vida e à promoção de interações contínuas entre pessoas e governo. Tecnologia da informação e comunicação aparece como meio, não como fim.
Onde as smart cities efetivamente melhoram o bem-estar
Há evidências conceituais e empíricas de que o modelo de cidade inteligente pode elevar o bem-estar urbano quando reduz fricções no cotidiano. Os efeitos aparecem em dimensões concretas: mobilidade mais eficiente com menos tempo perdido em deslocamentos; acesso facilitado a serviços públicos digitais; monitoramento de riscos e resposta mais rápida a emergências; e maior inclusão de pessoas com deficiência quando há desenho universal e acessibilidade desde a concepção dos sistemas.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) trabalha com indicadores para cidades inteligentes que medem exatamente isso: serviços urbanos, qualidade de vida, resiliência e inteligência urbana. A lógica é simples: dados e conectividade têm valor quando facilitam o acesso das pessoas ao que precisam, não quando existem por si mesmos.
Riscos que os pilotos tecnológicos raramente antecipam
O principal risco de uma cidade inteligente é ela ficar excessivamente orientada à eficiência técnica e pouco voltada às pessoas. Nesse cenário, a digitalização pode reforçar desigualdades de acesso, excluir quem não domina ferramentas digitais e enfraquecer redes de convivência.
Um estudo da PUCPR alerta que, sem enfrentamento das desigualdades, as smart cities podem criar “muros tecnológicos” e intensificar processos de gentrificação e exclusão socioespacial. Quando investimentos digitais valorizam determinadas áreas e encarecem o custo de vida local, populações vulneráveis são deslocadas, e a cidade fica mais inteligente para alguns e mais hostil para muitos.
A Fiocruz reforça essa leitura: a sustentabilidade nas cidades inteligentes precisa ser reavaliada à luz das desigualdades sociais e econômicas, com ênfase em redistribuição de recursos e oportunidades. Tecnologia sem inclusão não produz bem-estar urbano. Pode, inclusive, reduzir.
O que medir para não perder o foco
Se o objetivo declarado de uma política de smart city é bem-estar, os indicadores de avaliação precisam refletir isso — e ir além da infraestrutura digital instalada. Na prática, isso significa acompanhar tempo de deslocamento e acesso ao transporte; percepção de segurança; acesso a saúde, educação e serviços digitais; participação social e confiança nas instituições; inclusão digital por faixa etária e renda; e qualidade e uso dos espaços públicos.
Esses indicadores cumprem uma função importante: evitam que “cidade inteligente” se torne sinônimo de automação, quando o que está em jogo é a experiência cotidiana de quem vive na cidade.
Três conclusões que a evidência sustenta
A literatura disponível aponta para um diagnóstico claro. Smart cities podem aumentar o bem-estar quando reduzem burocracia, melhoram mobilidade e ampliam o acesso a serviços. Podem piorar o bem-estar quando produzem exclusão digital, fragmentação urbana e gentrificação. E entregam os melhores resultados quando a cidade é planejada como ecossistema humano, com tecnologia a serviço de inclusão, participação e sustentabilidade.
O desafio para gestores públicos não é adotar ou rejeitar o modelo de cidade inteligente. É garantir que a inteligência urbana sirva às pessoas que a cidade existe para abrigar.
ABNT. Indicadores para cidades inteligentes, resilientes e sustentáveis. Disponível em: https://abnt.org.br/certificacao/smartcities/. Acesso em: 16 abr. 2026.
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